sexta-feira, 10 de julho de 2015

Lisboetas sentem-se cada vez mais acossados pelos turistas / Da “airbnbização” de Lisboa, do Porto e de "Todo" o Portugal / O bezerro de ouro” / ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO


Lisboetas sentem-se cada vez mais acossados pelos turistas
Por Regina Nogueira / 1-6-2015 / PÚBLICO

São cada vez mais e aumentam a pressão sobre a cidade e sobre quem mora no centro histórico. O comércio está a mudar e há quem fale em descaracterização. O dedo é apontado à câmara

Não há dia em que não apareçam ofertas no correio de alguns habitantes do centro histórico de Lisboa para que vendam as suas casas. Em todas as ruas, becos e vielas há turistas, estando a cidade - desde o comércio à habitação - a transformar-se para os acolher. As críticas têm subido de tom e há quem diga que a capital não aguenta este turismo de massas. O alvo das acusações varia, mas a maior parte das baterias é apontada à câmara. O certo é que cresce o mal-estar entre os lisboetas, que se sentem um dano colateral desta nova dinâmica económica.

Um pouco por todo o centro histórico, multiplicam-se cafés, restaurantes e lojas cujo mote é o very typical. Em todo o lado nascem hostels, serviced apartments e boutique hotels e já não há quem consiga contar os tuk tuk que se acotovelam pelas ruas estreitas. Por entre o ruído dos trolleys na calçada, os moradores pedem ao poder local que se lembre de quem (ainda) vive aqui.

Lisboa está nas bocas do mundo e soma distinções: Melhor Destino Europeu, Melhor Destino Urbano, Melhor Destino Low Cost, Melhor Destino Low-Cost para Lua-de-Mel, Melhor Porto de Cruzeiro, e até foi considerada a quarta cidade Mais Bonita do Planeta. Mas nem todos estão contentes com esta visibilidade. "Lisboa está na moda e isto é muito negativo para os moradores, pois coloca em causa a sua qualidade de vida pelos problemas de ruído, segurança, mobilidade e estacionamento, higiene e salubridade urbana", diz Luís Paisana, presidente da Associação de Moradores do Bairro Alto (AMBA).

Uma "feira popular"

O consultor considera que a imagem utilizada para vender a cidade tem sido a de uma "feira popular" onde os turistas podem usufruir de um espaço onde tudo é literalmente possível: fazer barulho, gritar, cantar ou beber na via pública com várias consequências, sobretudo a nível de higiene, "transformando estas zonas em gigantescas casas de banho e depósitos de lixo público, esquecendo-se do fundamental: o centro histórico é uma zona residencial".

Para Fernando Marta, que reside no Bairro Alto há 59 anos, o aumento do turismo significou uma revitalização positiva no comércio, especialmente a nível da restauração. E realça que os preços do arrendamento subiram muito, motivados pela procura do alojamento temporário: "Há proprietários de imóveis no centro histórico que se mudam para zonas limítrofes da cidade, alugando a casa a estrangeiros como forma de rendimento livre de impostos."

Só no Airbnb, um site onde qualquer pessoa pode disponibilizar a sua casa ou parte dela para aluguer temporário, existem mais de mil espaços para arrendar em Lisboa. A esmagadora maioria não está legalizada. Tomás Berger, que trabalha na área dos alugueres de curto prazo há cerca de três anos, diz que a oferta tem tido um aumento exponencial e que, "se o aumento do turismo tem descaracterizado a cidade, a culpa não é de quem visita, mas da forma como se gere este turismo". Este fenómeno, diz, deve-se ao facto de a gestão camarária estar a criar e a promover zonas especificamente para turistas.

O debate entre moradores, operadores turísticos e a Câmara Municipal de Lisboa (CML) tem vindo a intensificar-se nos últimos meses. Na terceira edição dos Encontros de Urbanismo, promovidos pelo Centro de Informação Urbana de Lisboa (CIUL) há poucos meses, Manuel Salgado, vereador com o pelouro do Urbanismo, reconheceu que o fenómeno provocou uma alteração no modo de vida dos lisboetas e que os alojamentos low cost e os sites como o Airbnb têm "um efeito muito perverso" no mercado de arrendamento e "um grande impacto no comércio".

Sobre esta questão, Luís Mendes, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-UL), diz que há "um fenómeno cada vez mais intenso a afectar o parque imobiliário do centro histórico lisboeta, sobretudo nos últimos cinco anos, com a proliferação de hostels e outras formas de alojamento turístico, pondo mesmo em risco a função residencial sobretudo da população autóctone que já habita nesses bairros há várias décadas."

"Desde o início deste século que a política de reabilitação urbana da CML tem ganho um pendor claramente neoliberal, esvaziando a habitação do seu estatuto de direito para ganhar o de mercadoria", diz o investigador. "Ao invés, a CML devia assumir um papel regulador e estabilizador do mercado imobiliário, que continua a seguir ao sabor dos grupos mais privilegiados, menosprezando os direitos da população."

A presidente da Freguesia da Misericórdia, Carla Madeira (PS), defende que o turismo é um dos principais factores de desenvolvimento da cidade e a sua actividade geradora de crescimento económico. Acerca do aumento das rendas e da perda de moradores, aponta erros ao Governo: "Este é um fenómeno mais ligado às alterações que foram introduzidas na legislação e ao desaparecimento de mecanismos de protecção da população mais carenciada ou idosa. A indústria do turismo certamente se aproveitará das oportunidades criadas mas não é o gatilho dessa situação." Vasco Morgado (PSD), presidente da Junta de Freguesia de Santo António, entende que a cidade não está preparada para o turismo em massa e que os lisboetas passaram a ser considerados danos colaterais. Para ele, a culpa é da câmara: "Não foram pensadas alternativas de defesa de quem cá mora e vive o seu dia-a-dia. Todos esses vectores foram substituídos pela vaidade de quem governa a cidade."

Pressão para sair

Lisboa foi a cidade europeia com maior crescimento turístico em 2014 (15,4% face ao ano anterior), atingindo os 11,53 milhões de dormidas, segundo a Associação de Turismo de Lisboa. Só em Janeiro de 2015, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, os estabelecimentos hoteleiros registaram aproximadamente dois milhões de dormidas (um aumento de 13,4% face a 2014). Para este ano está ainda prevista a abertura de 20 novos hotéis, o equivalente a 1600 novos quartos.

Para Luís Paisana, o problema reside na concentração da oferta face à área e ao número de habitantes. Aliás, Lisboa tem vindo a perder população de uma forma dramática. Em 1980, os alfacinhas ultrapassavam os 800 mil. Hoje, são cerca de 547 mil habitantes, dos quais pouco mais de 110 mil residem no centro histórico. "O centro histórico de Lisboa é demasiado pequeno e não tem capacidade para absorver tantos turistas. Não nos podemos esquecer de que aqui vive gente e que é essa gente que constrói aquilo que os estrangeiros vêm ver", diz o presidente da AMBA. "Temos de acabar com esta venda de Lisboa a qualquer preço. Este turismo low cost destrói mais do que paga."

Luís Paisana garante que a procura de espaços para hotéis e para arrendamento temporário é maior do que a oferta, o que inflaciona os preços e impede a fixação de novos moradores. "Os que ainda cá estão têm a pressão diária de sobreviver aos problemas que se agravam e começam a pensar sair", continua.

Este processo reflecte-se também no comércio, uma vez que as lojas tradicionais têm vindo a ser substituídas - só na zona da Baixa existem cerca de 40 lojas que vendem bebidas e produtos de baixa qualidade, como camisolas da selecção nacional e souvenirs. A AMBA diz ter conhecimento de situações em que existe pressão dos senhorios para substituir os actuais arrendatários por estas lojas de conveniência. O mesmo fenómeno acontece também no mercado de arrendamento para habitação.

João Lobo, arquitecto a viver na Baixa há quatro anos, confirma a intimidação por parte do sector imobiliário. "Recebo todos os dias no correio folhetos de agências interessadas em comprar o meu apartamento. Aos poucos, a Baixa está a deixar de ser um bairro para passar a ser um spot turístico", afirma. "Houve uma mudança radical na poluição sonora e visual, no início era calmo viver aqui. Hoje em dia quem frequenta os supermercados e cafés da zona são apenas os estrangeiros e, no Verão, chega a ser impossível ouvir falar português."

Carla Madeira diz que só o Governo pode encontrar um equilíbrio entre turistas e residentes. "Há que sensibilizar o poder central para a necessidade de entender a reabilitação e a requalificação como sectores estratégicos para um desenvolvimento sustentável." Já Vasco Morgado entende que "a única política pública que poderia salvaguardar o êxodo da cidade seria não permitir mais de determinada percentagem de alugueres temporários por freguesia", mas que "não há interesse [da CML] em ter pessoas na cidade, pois quanto menos opinião e votos houver mais fácil se tornará ganhar eleições".

Numa entrevista à Revista 2, Fernando Medina, presidente da câmara, contrapôs que a cidade tem beneficiado do boom turístico, referindo que o impacto é positivo sobretudo do ponto de vista da reabilitação dos edifícios. E, sublinhou, "toda a cidade vibra e está mais animada, até com espaço para novas actividades que são geridas por habitantes", acrescentando estar convencido de que ainda há espaço para crescer.
Texto editado por Ana Fernandes


Da “airbnbização” de Lisboa, do Porto e de "Todo" o Portugal,
António Sérgio Rosa de Carvalho / TERÇA-FEIRA, 30 DE SETEMBRO DE 2014

A 27 de Novembro vai entrar em vigor um novo Regulamento que define as condições de Aluguer de Alojamentos a Turistas. Quando comparado com outros Regulamentos Internacionais, este revela-se insuficiente e apresenta grandes lacunas.
Precisamente, a questão dos seus efeitos perversos no direito à Habitação Permanente nos Centros Históricos, na incapacidade de regulamentar a tendência crescente para a monopolização especulativa de habitações e consequente ocupação omnipresente de todos os espaços disponíveis para alojamento temporário, seja a Turistas ou “Expats”, é algo que preocupa as autoridades e estrategas das Cidades no Estrangeiro.
Aqui em Portugal, pelo contrário, afirma-se calmamente e de forma acrítica na Comunicação Social: “Em Portugal, não se impede que as casas estejam exclusivamente destinadas a este efeito, não se limitam períodos de estadia, não se limita o número de apartamentos que uma pessoa pode ter no mercado, não se estabelecem obrigações de prestação de serviços no apartamento, não se impõem capacidades máximas nem números de equipamentos a constar do apartamento. Um regime muito mais aberto do que em Madrid ou Barcelona ou Amesterdão, portanto.” (http://www.dinheirovivo.pt/mercados/casas/interior.aspx?content_id=4120643&page=-1 )
É precisamente neste contexto preocupante que surge a seguinte Proposta/ Convite:

UMA PROPOSTA AOS SENHORES JORNALISTAS.

Há cerca de duas semanas o jornal de referência Holandês , “Volkskrant” dedicou uma destacada reportagem ao fenómeno Airbnb e aos seus efeitos na cidade de Amsterdão.
Airbnb iniciou a sua actividade há cerca de seis anos. Tratava-se no início de um conceito simpático. Airbnb fornecia através do seu site uma plataforma para o aluguer de casas a particulares, garantindo assim uma estadia local personalizada em ambiente autêntico, numa inserção imediata no contexto de uma cidade e seus habitantes. Os preços variavam em função do nível da qualidade oferecida, mas o atractivo fundamental era poder usufruir de uma verdadeira casa de forma económica. Tudo isto se inseria no novo conceito da Economia Participativa da Troca e Partilha.
Desde logo surgiram reacções da indústria hoteleira alertando para uma concorrência desleal perante as questões fiscais e garantias de segurança dos hóspedes. No seguimento do grande êxito alcançado, ( entretanto oferta de 800.000 alojamentos com mais de metade neste número na Europa) as diversas cidades começaram a desenvolver regulamentos, não sem um grau de resistência da própria Airbnb e respectiva polémica.
Assim a reportagem foi motivada pelo facto que a filosofia inícial de cosmopolitismo e partilha foi acentuadamente corrompida pelo negócio especulativo e monopolizador. Assim surgiram verdadeiros Empresários e trocou-se o conceito privado da oferta pessoal e particular de uma casa, pela compra de prédios inteiros apenas dedicados às estadias temporárias.
Além da fuga aos impostos e da questão da garantia de segurança ( incêndios ) existe a questão da ocupação e da perda progressiva de espaços de habitação Local Permanente para os residentes e habitantes da Cidade.
O regulamento em Amsterdão estabelece que o periodo máximo de oferta de um alojamento por Ano é de 60 dias. O número máximo de hóspedes é de 4 pessoas. ( não apenas por alojamento mas por edifício ) . O alojamento tem que garantir segurança e a instalação de um sistema de prevenção e combate a incêndio é obrigatório. Os hóspedes não podem ser fonte de incómodo para a vizinhança e a envolvente. A autorização do Proprietário é necessária. Aquele que disponibiliza o alojamento para aluguer tem que pagar 5,5% como Imposto Turístico e declarar os seus rendimentos aos Impostos. ( a própria Airbnb cobra pelos seus serviços 6 a 12 % sobre a quantia paga pelo hóspede ).
Comparar com a versão Portuguesa que entra em vigor a 27 de Novembro. “Em Portugal, não se impede que as casas estejam exclusivamente destinadas a este efeito, não se limitam períodos de estadia, não se limita o número de apartamentos que uma pessoa pode ter no mercado, não se estabelecem obrigações de prestação de serviços no apartamento, não se impõem capacidades máximas nem números de equipamentos a constar do apartamento. Um regime muito mais aberto do que em Madrid ou Barcelona ou Amesterdão, portanto.” (http://www.dinheirovivo.pt/mercados/casas/interior.aspx?content_id=4120643&page=-1 )
Esta perda de espaços de habitação no Centro histórico é agravada por um grande número de oferta de residência permanente a “expats” e um intenso negócio especulativo à volta deste fenómeno, diminuindo acentuadamente a oferta residencial aos habitantes locais e inflacionando os preços de forma astronómica.
Uma das cidades onde esta tendência é mais gritante é Londres que se transformou num recreio permanente para multimilionários Russos e Árabes, exibindo de forma ostensiva a sua riqueza opulenta, enquanto que, mesmo para os Yuppies locais na herança “tatcheriana” tornou-se impossível de habitar o Centro. Mesmo um casal, ambos com um bom emprego, tem que se adaptar com esforço financeiro a habitar numa simples periferia, agora “gentrificada”.
Os “Yuppies” transformaram-se numa nova tribo, os “Endies” , ou seja aqueles que mesmo bem empregados não dispõem de rendimentos além do limite de sobrevivência. Se quiserem ter casa, têm que ficar diáriamente nela em frente da televisão e alimentar-se no Lidl, isto para não falar em ter filhos.
Como último exemplo Internacional, New York. Aqui o confronto entre as autoridades locais e a Airbnb foi fortíssimo. Deu artigo polémico e denunciador por parte do Procurador da Cidade no New York Times,( ERIC T. SCHNEIDERMAN APRIL 22, 2014 / New York Times) e depois de período de resistência por parte da Airbnb que terminou em processo jurídico movido pela Cidade, a Airbnb foi obrigada a disponibilizar a lista completa/ moradas/alojamentos/clientes/empreededores e a expulsar 2.000 como não dignos de confiança.
E em Lisboa? Por falta de espaço, deixo um convite aos jornalistas para uma possível investigação/ reportagem sobre este fenómeno e os seus efeitos para a Cidade no Presente e no Futuro.
Não, sem relembrar a “estratégia”que Manuel Salgado definiu no PDM : a Baixa “nunca será um bairro residencial” e as suas propostas reduziam-se exclusivamente a “ um investimento na hotelaria, residências universitárias e alojamentos de curta e média permanência.”
Assim, deixo mais uma proposta de investigação para os senhores jornalistas. Agora que o Império BES ruiu,”pilar” Imobiliário onde Manuel Salgado sustentava o seus planos de Investimento dos Projectos para a Cidade, o que vai acontecer ?
António Sérgio Rosa de Carvalho
Historiador de Arquitectura


VER ainda :
Da “airbnbização” de "Todo" o Portugal
OVOODOCORVO /19 de Agosto 2013.
http://ovoodocorvo.blogspot.nl/2014/08/da-airbnbizacao-de-todo-o-portugal.html

A boa gestão do Turismo está intrísecamente e necessáriamente interligada com o Planeamento Urbanístico e Gestão do Espaço Público. Alojamentos alternativos sobem em flecha. Why Hotel Industry Lobbyists Want A Global Crac kdown On Airbnb.

Manuel Salgado elegeu a Baixa, coração estratégico da cidade de Lisboa, como palco globalizado de eventos e animação, e área apenas e exclusivamente de residência temporária através de mais de 100 projectos para Hotéis além dos inúmeros Hostels.
A ideia de residir, habitar, Identidade Local, assegurada por famílias, foi completamente posta de parte …
Agora, nos Bairros Históricos essas mesmas famílias, acossadas pela crise disponibilizam as sua casas, que se tornaram inabitáveis a partir de 5a Feira devido à “Animação” de rua, “boteillon” e afins, para aluguer, através de sites como o Airbnb.
Claro que este fenómeno sem planeamento e sem controle em termos de Hotelaria Paralela está já a concorrer já de forma determinante com a Hotelaria Clássica.
Adivinha-se neste conjunto de circunstâncias, inevitávelmente o desastre de saturação do mercado com uma oferta que vai largamente ultrapassar a procura.
Chama-se a isto mau Planeamento Urbanístico, assim como a ausência total de estratégia e planeamento na área do Urbanismo Comercial, tem vindo a provocar o desaparecimento de vários estabelecimentos Tradicionais que garantem a Identidade de Lisboa como Cidade Autêntica e não como palco /Globalizado de eventos e “Happenings”.
António Sérgio Rosa de Carvalho
OVOODOCORVO/ 19 DE AGOSTO DE 2013
http://ovoodocorvo.blogspot.nl/2013/08/a-boa-gestao-do-turismo-esta.html

Airbnb: we're here to stay, says billionaire as rental website is accused of evading rules and tax
Nathan Blecharczyk, co-founder of controversial global lodging startup, insists company is a force for good and wants to help authorities adapt to its new technology
Rory Carroll in San Francisco


O bezerro de ouro”
ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO 22/05/2014 - PÚBLICO

Todo o centro histórico está, através de uma “gentrificação” especulativa, a ser transformado num “gueto” do turismo de massas.

Portugal submisso acordou “limpo”. Sentido-se culpado e tímido desde a descolonização, aceitou a condenação e a sentença impostas por outros. Sente-se agora aliviado por uma solução também imposta por outros, e restabelecido com plenas honras no clube a que deseja desesperadamente pertencer.

Esta saída foi comemorada simbolicamente por duas “entradas”.

A primeira foi ilustrada através de viagem iniciática ao Portugal renascido para a banca internacional, num barquinho viajando através de um Portugal de cartolina, agora já não dos “pequeninos” mas dos pequeníssimos.

A segunda, esta de maior escala, pela visita de três paquetes históricos, mensageiros das promessas do novo “bezerro de ouro”, o turismo de massas.

Foi com grande regozijo esperançado que recebemos este sinal de um futuro promissor.

Enquanto a juventude portuguesa parte, a tal que iria construir Portugal de forma sustentada, aqueles que irão trazer dinheiro de forma instantânea chegam.

De resto, Manuel Salgado e Costa já desenvolveram e garantiram o décor e palco para o culto deste “bezerro de ouro”.

Assim, todo o centro histórico está, através de uma “gentrificação” especulativa, a ser transformado num “gueto” do turismo de massas.

O planeamento e construção de hotéis não pára. A entrega de todo o património pombalino às imobiliárias, exclusivamente para habitação de luxo, está já vitoriosamente, ajudada pelos vistos gold, a aumentar os preços.

Há promessas de que muitos reformados do Norte da Europa se instalem, usufruindo da docilidade natural local, anestesiada pela crise e pela confirmação de dependência e inferioridade.

O mundo das imobiliárias e da construção espera agora desesperadamente que lhe entreguem todo o centro histórico, em nome da famigerada “reabilitação urbana”.

As poucas famílias locais que se instalaram nos “bairros históricos” são agora obrigadas a transformarem as suas habitações num gigantesco negócio de estadias temporárias, simultaneamente tentando escapar ao barulho e lixo permanentes, garantidos pela “animação do 'Zé'”, que estão a tornar Lisboa inabitável.

Está assim garantida a transformação de toda a Lisboa, não em cidade apropriada e vivida pelos residentes locais com identidade própria, mas sim em produto de consumo efémero e temporário, palco globalizado pronto a ser devorado pelo turismo de massas.

Barcelona produziu um documentário dirigido de forma muito crítica às consequências para a cidade e os seus habitantes de um turismo massificado.

São conhecidas as quatro fases progressivas das reacções locais aos efeitos do turismo de massas: euforia, apatia, irritação e antagonismo.

Estamos simultaneamente na fase de euforia e de apatia.

Apatia perante as consequências da estratégia delineada por Manuel Salgado, que não só destrói todos os interiores do património pombalino, mas leva a uma “demolição” sociológica de ocupação, muito mais grave. Um centro histórico ocupado apenas por ricos ou turistas, sem identidade ou famílias locais, produto temporário e décor efémero pronto a ser devorado.

Não tardará muito que se passe à fase da irritação. Se se passará à fase do antagonismo, duvido.

De qualquer maneira, este é um processo irreversível e imparável.

Por detrás do altar do “bezerro de ouro” esconde-se a plataforma de sacrifício onde milhares de cordeiros dóceis, com a corda ao pescoço, aguardam a matança.


Historiador de Arquitectura

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