segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Bancos e banqueiros portugueses, por Luís Osório


Bancos e banqueiros portugueses
Por Luís Osório
publicado em 27 Out 2014 / in (jornal) i online
O poder é um lobo cuja fome não se atenua com a fartura de proteínas

“Os bancos são demasiado importantes para serem geridos por banqueiros”, diz um cartaz político, creio que do Bloco de Esquerda. Nada de mais errado. Um dos momentos positivos da história do sistema financeiro foi a chegada às administrações de um grupo de gente com conhecimento técnico, preparação académica e especialização. O país deve bastante a homens como Câmara Pestana ou Cupertino Miranda por terem, de maneiras diferentes, permitido que a banca deixasse de estar entregue aos accionistas bem-nascidos que faziam, como era useiro dizer-se, as avaliações de mão no queixo.

Com o 25 de Abril surgiram projectos de sucesso que acrescentaram mais pasto à benignidade da ideia – por um lado o BCP de Jardim Gonçalves, onde cresceu uma elite com ritmos e ambições internacionais; por outro o BPI, de Artur Santos Silva e Fernando Ulrich, um pequeno banco onde se misturou uma velha aristocracia do Norte com uma nova burguesia não herdada.
Volto à frase do cartaz. Que ataca um princípio positivo em função dos desastres na banca portuguesa. O mesmo poderia afirmar da democracia; não questiono os seus princípios por parte importante dos protagonistas não estar à altura. Como não questiono o jornalismo, os princípios da cirurgia, a feitura de leis e por aí adiante. O problema é o poder, não há muita volta a dar. E este só é fascinante para os que não o têm. Depois de o ter é outra coisa, o fascínio atenua-se antes de desaparecer por completo, um paradoxo. Porque quando se tem o poder o tudo parece muito pouco. Nunca se tem o bastante. O poder é um lobo esfomeado cuja fome e sede não se atenuam com a fartura de proteínas. É uma questão humana, não dos princípios. Ou, se preferir, o problema não são os bons princípios mas o uso que deles se faz.   

Talvez o triste processo do BCP (onde o papel de Ricardo Salgado ainda está por revelar), a criminosa gestão no BPN e a impressionante sucessão de acontecimentos à volta da família Espírito Santo e do BES, possam trazer as condições objectivas para uma melhor regulação e uma mais eficaz separação entre o que é a banca de retalho e a banca de investimento, entre o que é zelar pelo dinheiro de quem deposita e o que é entrar num jogo de casino onde sorte, azar e tentações não vivem bem umas sem as outras.

Nada leva a crer que os bancos portugueses possam deixar de ser portos seguros num mundo que, ele próprio, é um icebergue em movimento. O BCP de Nuno Amado tem estado acima do que eram as expectativas e a reprovação no teste de stresse não é surpreendente ou preocupante. Veremos qual o plano de recapitalização. Mas é estranho ouvir Constâncio, elevado à categoria dos senadores do Olimpo, a perorar sobre a capacidade dos bancos serem mais resilientes e sólidos. Enfim, sem mais comentários.

Uma nota final para recordar que estes testes são um bom princípio mas valem o que valem. O BES passou incólume, estava pronto para todas as intempéries. E já não existe.   

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