segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CHINA. Um mundo de profundas contradições e um futuro com grandes desafios.


CHINATOWN /EDITORIAL/ Público
A China está a viver o tempo das dores de crescimento. A expansão económica abrandou e tornou mais difícil ao Partido Comunista legitimar um poder assente na mistura entre dois modelos de sociedade antitéticos, o capitalismo e o comunismo. Para o exterior acentuam-se a afirmação nacionalista e as exibições de músculo militar. No interior, o problema é mais difícil. A corrupção dos dirigentes tornou-se o principal problema político do partido. Associado à corrupção está o espectáculo da ostentação e do luxo, a convivência entre Marx e Chanel. Os rigores ideológicos já não são deste século, mas as aparências sim. E a nova liderança de Pequim assumiu como uma prioridade o combate aos excessos. Com uma particularidade: os prevaricadores são exibidos nos media onde o Presidente, Xi Jinping, é sempre apresentado como o campeão da moralização. Mas está muito para além dos seus poderes resolver a contradição em que está fundado o regime, na qual se confundem o maoísmo e Chinatown.

 
Em 2013 (o primeiro ano de Xi) foram “apanhados” mais de 182 mil funcionários corruptos
A guerra do Presidente Xi Jinping contra o luxo e os bolos de lua

Os funcionários comunistas, do mais baixo ao de topo, deslumbraram-se com o acesso fácil ao dinheiro. Agora acabaram-se os relógios de dez mil euros e os petiscos revestidos a ouro
Ana Gomes Ferreira / 20 jan 2014 / in Público

Na quinta-feira, o Governo de Pequim decretou que se os clubes de luxo de Pequim não mudarem de imagem e de atitude, serão encerrados. Um desses clubes, o Yishiliu, funciona num lugar proibido, o pavilhão Yushantang, construído durante a dinastia Qing (1644-1911). De entrada reservada aos muito poderosos com os bolsos bem cheios, tem pratos que custam o equivalente a 1300 euros, segundo noticiou a agência oficial chinesa, a Xinhua.
O problema para o Presidente Xi Jinping — o homem que exigiu que o luxo tenha “um nível aceitável —, é que a maior parte dos poderosos e ricos que esbanjam fortunas a comer, a beber e a olhar para mulheres bonitas nas noites de Pequim são, em primeiro lugar, os seus colegas, os homens mais bem posicionados no aparelho do Partido Comunista.
De acordo com outra fonte oficial, o Diário do Povo, o Governo exige agora aos funcionários que se comprometam, por escrito, a não frequentarem os clubes e haverá sanções severas para quem for apanhado dentro de um. Noutra frente desta guerra contra a ostentação e o despesismo, diz o South China Morning Post, as autoridades estão a verificar todos as licenças de funcionamento e os clubes instalados em sítios impensáveis – como o Yishiliu de Pequim que funciona numa relíquia histórica –, serão encerrados.
“As regras não podem ser olhadas como coisas que só existem no papel”, disse o Presidente que, depois de ter iniciado, mal tomou posse, uma guerra contra a corrupção — da mais pequena à grande corrupção de Estado, “iremos às moscas e aos tigres”, disse —, avança agora contra o deslumbramento dos que ganham salários que saem do erário público.
Toda esta campanha, explicam os analistas, tem um só objectivo: evitar o declínio do partido, o pilar que sustenta toda a estrutura político-económica chinesa, e que corre o risco de se desacreditar perante os cidadãos. “Se os governantes chineses mostrarem que acreditam na doutrina, terão mais legitimidade e serão seguidos [pelo povo] e obedecidos”, explica David Kelly, da China Policy, uma empresa de consultadoria e análise de Pequim. “Se não acreditam, acontece o mesmo que aconteceria na Igreja Católica se os padres não acreditassem nos evangelhos”.
Moscas e tigres
Xi Jinping terá outros motivos para aplicar esta campanha de moralização que regulamenta o comportamento e os gastos dos funcionários do partido — no meio das moscas que ia apanhando, também atirava aos tigres. Um dos principais opositores políticos de Xi foi condenado a prisão perpétua, Bo Xilai, acusado de ter recebido 25 milhões de euros em subornos sob várias formas.
Por corrupção e abuso de poder (para benefício próprio) está detido outro homem temido por Xi e pela facção agora no poder em Pequim. Trata-se de Zhou Yongkang, o primeiro ex-membro do Comité Permanente do Partido Comunista a ser investigado. Completa a tríade de “tigres” já em apuros Jiang Jiemin, que tutelava as mais de cem empresas estatais de petróleo, e que foi preso por suspeita de corrupção e desvio de verbas públicas.
A maior parte dos detidos são, porém, governantes e funcionários intermédios – por isso, a Foreign Policy chamava a Xi “O senhor das moscas” num artigo recente. O antigo chefe da polícia da cidade de Wenzhou, Wang Tianyi, por exemplo, é uma “mosca” e foi preso porque aceitava subornos sob a forma de presentes e escolhia apenas obras de arte: tinha na sua posse 195 quadros de pintores famosos, 23 peças de porcelana antiga, 495 moedas valiosas e quatro objectos de arte ocidentais não especificados.
A directiva governamental sobre presentes data do final do ano passado e proíbe-os – o decreto dos Oito Pontos, de Dezembro de 2012, que era mais abrangente já dizia que todos os funcionários deviam eliminar as “más práticas” como o hedonismo e a extravagância. Os produtos escolhidos pelos funcionários do partido para oferecerem a outros funcionários do partido, a visitantes ou a pessoas consideradas importantes também tinham ultrapassado o “nível aceitável”.


 Wen Jiabao nega ter enriquecido a família enquanto foi 1.º ministro da China
AFP 19/01/2014 – in Público

Numa carta publicada num jornal de Hong-Kong, e em resposta a uma investigação de 2012 do New York Times, Wen Jiabao desmente "abuso de poder para ganho pessoal".

O antigo primeiro-ministro chinês Wen Jiabao negou, na imprensa de Hong-Kong, que a sua família tenha acumulado centenas de milhões de dólares durante a década em que esteve no poder (2003-2013), como escreveu o New York Times em 2012.

“Nunca estive envolvido e nunca me envolverei numa qualquer operação de abuso de poder para ganho pessoal porque ganhos, de que importância forem, não corresponderiam às minhas convicções”, declarou o antigo primeiro-ministro numa carta enviada a Ng Hong-mun, editorialista do diário de Hong-Kong Ming Pao.

“Quero percorrer a derradeira parte da minha viagem na Terra com dignidade. Cheguei a este mundo com as mãos vazias e quero deixar este mundo com as mãos limpas”, acrescentou o ex-governante na carta datada de 27 de Dezembro, de acordo com o editorial publicado neste sábado.

Em Outubro de 2012, o New York Times publicou uma extensa investigação, que calculava em 2,2 mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) a fortuna da sua família em 2007. O jornal não identificara no entanto desvios de fundos ou enriquecimento ilícito pelo próprio Wen Jiabao.

Interesses em bancos, joalharias, etc
A sua família tem interesses em bancos, joalharias, investimentos turísticos, companhias de telecomunicações e projectos de infra-estruturas, recorrendo por vezes a entidades off-shore, segundo o New York Times que manteve estas informações apesar dos desmentidos que se seguiram à publicação da investigação.

Ng Hong-mun é um político de Hong-Kong, conhecido pelos seus comentários sobre as relações entre Pequim e o território semi-autónomo devolvido à China em Julho de 1997, e visto como próximo de Wen Jiabao.

A carta do antigo primeiro-ministro que lhe foi enviada é divulgada agora que o novo Presidente chinês Xi Jinping promete lutar contra a corrupção, e incluir nessa luta responsáveis em altos cargos. De acordo com analistas, Wen Jiabao não deverá ter de prestar contas à justiça mas estará provavelmente sob pressão para limpar o seu nome depois das alegações do New York Times.

Willy Lam, um especialista em política chinesa na Universidade de Hong-Kong, considera ser “altamente improvável” que Wen seja acusado: “o motivo principal por detrás dos últimos casos que envolveram altos responsáveis prendia-se com uma luta interna no partido” e Wen Jiabao está actualmente reformado, diz.

Com a investigação sobre a fortuna dos dirigentes chineses, o New York Times ganhou um prémio Pulitzer. O site do jornal na Internet foi pirateado e bloqueado depois da divulgação dos artigos. Ao fim de dez anos no cargo de primeiro-ministro, Wen foi substituído por Li Keqiang em Março de 2013, de acordo com a mudança de liderança habitual na China todos os dez anos.


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